A inocencia

Um velho pintor, observa crianças que correm no gramado do parque da cidade afim de captar algum bom momento para pintar, suas mãos já são tremulas, mas não o impedem de executar com perfeição seu trabalho.
Ele, sempre encarou a vida com um tom boêmio, diria até leviano, pintava coisas que acreditava que traduzissem a vida em sua mais pura essência, tentava retratar sorrisos, alegrias e tristezas, procurava por casais apaixonados fazendo piqueniques pelo parque, e as crianças brincando lhe traziam uma sensação de pureza.
Aos seus 78 anos de idade, não tinha esposa e muito menos filhos, ao menos filhos que ele soubesse da existência. Ele se perguntava, enquanto pintava uma menininha com um sorriso encantador, se havia escolhido a maneira certa de viver, talvez sim, talvez não, ele ainda não sabia ao certo, mas de algum jeito, ver aquelas crianças o fazia lembrar de sua própria infância, pobre e sofrida, mas de uma estranha forma, feliz.
Seu pai era um trabalhador da roça e sua mãe, cozinheira na casa de uma família que ele não lembrava o nome, alguma coisa com Will...Willa.. não importa.
Ele descobriu seu dom numa manhã de domingo, enquanto sem esforço retratou o vôo de uma andorinha, seu pai estupefato, disse-lhe que mesmo que ele morresse o colocaria numa escola de artes, prometeu a si mesmo que seu filho não teria o mesmo destino que ele.
Graças a sua dedicação, consegui uma bolsa na escola de artes de sua cidade, um talento notável.

Boas lembranças afinal”, enquanto um pequeno sorriso se abre em seus lábios.
Aquela doce criança que dava graça a única emoção que ainda não pintara, a inocência, fez-lhe ver o quanto a vida é bela, o quanto é simples se olhá-la com atenção.
  Quadro pronto, enquanto leva o quadro para casa, que estava somente a duas quadras do parque, sucumbiu a uma forte dor que o matou antes que pudesse pedir ajuda.
Sem amigos, sem família, provavelmente, nos seus últimos segundos de vida, aqueles que dizem que sua vida toda passa diante de seus olhos, acho que percebeu que viveu uma vida vazia, apesar de encarar a vida com leveza e, acima disso, gostar de viver, sem amor, de nada valeu, apenas mais uma vida que se foi.

Para os que estavam presentes na cena, apenas a lembrança de um quadro sobre inocência e tintas e pincéis espalhados pelo chão.
- Não desperdice uma vida aproveitando falsos ideais, ame, ame de verdade, sem receios, sem anseios, apenas ame, e viva...


texto de 14/08/2011

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